segunda-feira, 16 de março de 2015

sábado, 1 de março de 2014

O inferno é o excesso de bem

Folheava com admirável assombro um livro de gravuras sobre o inferno. Mundaréu agonizando castigos indescritíveis. Vítimas de chicotes, fogueiras e arreios. Mulas de pedra e dor. Um mar de cotovelos e joelhos estalando no precipício. 
Os pais me emprestaram as pinturas para ficar com medo de pecar e só aumentaram a minha curiosidade. 
Não levei a sério. Se fosse verdade, o masoquista faria reserva do caldeirão. 
Discordo que o inferno seja a privação do que gostamos. A renúncia do que não valorizamos. 
O inferno é o que a gente ama, mas em excesso. 
Lembro da torta de nozes. Era apaixonado, comia uma fatia por noite durante anos. Botava guardanapo na gola para naufragar a barba no creme. Hoje não suporto o cheiro. Tortura seria me colocar dentro de uma vitrine repleta do doce. O mesmo ocorreu com a panelinha de coco, o alfajor, o chocolate em barra. 
Alegria em demasia é tristeza. Quem repete três vezes seu prato predileto tem rosto de velório. 
O paraíso é o bocado, o gole gostoso, o pouco intenso. Deixar o que se deseja para depois e nunca deixar o desejo. 
As mulheres reivindicam homens românticos. Pedem escandalosamente um perfil gentil, amável, cordial, obediente, misto de agenda (capaz de lembrar todos os aniversários e datas comemorativas) e diário (que escreva poemas e preencha cartões floreados). Na hora em que encontram o sujeito sonhado, querem distância. Consideram a figura grudenta, gosmenta, tediosa. Resmungam que é muito submisso (se você vem sendo chamado de fofo pela namorada está a um passo do despejo) 
Os homens procuram mulheres com irrefreável apetite sexual. Para ter sexo a cada turno. Sem enxaqueca, trabalho e preocupações familiares. Caso pudessem, adotariam arquitetura de motel no quarto com retrovisores na cama. 
Pois quando se deparam com uma ninfomaníaca viram monges. Usam pijamas listrados. Decidem discutir a preliminar. Forram a cabeceira com dicionários. Revelam traumas de infância. 
Torna-se insuportável trepar a cada quinze minutos e não terminar um pensamento inteiro. Não é mais questão de virilidade, é de sanidade. A transa depende da lembrança para renovar a imaginação. 
Qualquer cinéfilo que assista a 12 horas de filmes fugirá da tela em branco. Qualquer médico que fique 36 horas de plantão desistirá de suas mãos. 
O exagero do bem enjoa. O exagero do prazer é o inferno.
Fabrício Carpinejar
"É luz antiga ao fim da tarde, essa saudade sem socorro. O meu inferno é a falta que você me faz."
Às vezes do inferno é que se enxerga o paraíso.
De que vale o paraíso sem o amor?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

"Partiu com o silêncio que cortava a garganta. Levava no bolso apenas recordações, nos pés; encruzilhadas infinitas..." Elany Morais

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sartre me disse que o inferno era o outro, descobri também um paraíso ali.
Marla de Queiroz